31.8.17

UM JAPÃO UNIVERSAL

        Repentinamente você abre os olhos e se encontra na penumbra. Um palmo a frente do nariz: escuridão. A luz fria e pálida da lua, no entanto, trespassa de forma tímida as frestas da janela. Os olhos adaptam-se à ausência de luz e você percebe vultos fantasmagóricos. O coração acelera, o medo assoma, mas gradativamente os vultos delineiam-se, ganham forma e você se dá conta de que são apenas os móveis do seu quarto.
        Sensação semelhante sentirá o leitor ao entrar em contato com a escrita de Valter Hugo Mãe, escritor português que tem ganhado grande destaque no cenário literário mundial – mais que merecido, diga-se de passagem. Aparentemente seus enredos carecem de coesão; seus personagens são figuras translúcidas; sua prosa, pequenos versos num confuso emaranhado lírico... Todavia, a Beleza não é fácil. Ela demanda labuta, suor, tempo e assimilação. A cada página virada, o leitor perceber-se-á maravilhado diante de um texto lapidado com precisão por esse escritor que fez as antologias literárias tornarem-se obsoletas por não terem o seu nome nelas.




        Seu mais recente lançamento, Homens imprudentemente poéticos (2016), publicado no Brasil pelo selo Biblioteca Azul, levará o leitor numa viagem a um Japão antigo, mítico e fabuloso, onde a vida ainda era regida principalmente pelos instintos e pelos espíritos da natureza.

          LENDAS, FÁBULAS E HISTÓRIAS
        Antes de falar sobre o enredo, é importante dar destaque à estrutura narrativa que ordena Homens imprudentemente poéticos. Os vários capítulos do livro carregam características típicas às lendas, fábulas e histórias populares, pois trazem consigo preceitos morais e fortes traços míticos. Fator fundamental para que o leitor seja transportado, sem qualquer estranhamento racional, a um tempo longínquo e a um espaço idílico, onde a racionalidade ainda não havia ditado suas regras à verossimilhança.
        Bem, dito isso, vamos ao enredo... Dois são os personagens principais: Itaro – homem austero devido a certas circunstâncias da vida – é artesão e nasceu com um dom (e também maldição) de prever o futuro ao presenciar a morte de algum animal; e Saburo, seu doce e sensível vizinho oleiro, que leva uma vida tranquila e apaixonada ao lado da esposa Fuyu. Ambos moram em um pequeno e pobre vilarejo ao pé do monte Fuji, à entrada da floresta dos suicidas, local em que muitos homens vão meditar sobre suas vidas e acabam decidindo por não voltar nunca mais.

Fonte: http://www.pipolltravel.com.br/sites/default/files/empregos_no_japao_fuji3_0.jpg


        Certo dia, Itaro prevê que Fuyu será morta por um animal misterioso da floresta e avisa seu vizinho que é preciso “mudar a natureza” para que isso não aconteça. Desesperado, Saburo decide construir um imenso jardim de flores para tentar acalmar os espíritos da floresta, mas a previsão de Itaro acaba provando-se inevitável – calma, isso não é spoiler, pois ocorre nas primeiras páginas do livro – o que acaba fazendo com que os vizinhos criem mútua antipatia e se tornem grandes inimigos. É a partir desse fato que a história vai ganhando contornos mais densos e percebemos, na verdade, que Mãe não conta a história de dois personagens ficcionais, mas sim a história de todos nós; a história de quem somos e de quem nos tornamos.

          OS OPOSTOS SEMPRE SE ATRAEM
        Quem nunca se sentiu fascinado ou provocado ao entrar em contato com uma pessoa oposta a você? O tímido que se apaixona pela pessoa extrovertida e eloquente; o nerd que almeja a aceitação entre os populares; a menina pudica que condena a colega de roupas curtas e decotadas... O ditado popular não erra ao dizer que os opostos sempre se atraem. Mas por quê?
        Ao nascermos somos uma massa amorfa capaz de ser modelada de infinitas maneiras. Fatores como o ambiente, a educação e as convenções sociais, por exemplo, dão-nos forma e aos poucos nossas potencialidades são construídas. Muitas potencialidades, entretanto, acabam “adormecidas” e vão parar em um limbo mental que na psicologia analítica é chamada de “sombra”.

A sombra não é o todo da personalidade inconsciente: representa qualidades e atributos desconhecidos ou pouco conhecidos do ego – aspectos que pertencem sobretudo à esfera pessoal e que poderiam também ser conscientes. [...] Quando uma pessoa tenta ver a sua sombra, ela fica consciente (e muitas vezes envergonhada) das tendências e impulsos que nega existirem em si mesma, mas que consegue perfeitamente ver nos outros.¹ (FRANZ, 2008, p. 222)

        Itaro e Saburo representam respectivamente a sombra um do outro. Itaro é a alegoria perfeita do comportamento lógico e objetivo, falta-lhe traquejo social e aptidão para expressar sentimentos, apesar de ser um artista capaz de produzir os mais belos leques do Japão; Saburo é o oposto: homem apaixonado e sentimental, artista sensível, rodeado de amigos e admirado pela vizinhança. É capaz, no entanto, de demonstrar bravura e petulância para proteger aquilo que lhe importa. É portanto a consciência que eles tomam um do outro que provocará o asco, a repulsa, a vergonha, o desejo de aniquilação, mas também uma atração incontrolável entre eles.

Fonte: https://mega.ibxk.com.br/2014/06/27/27190924117004.jpg?w=600

O artesão pensava no vizinho oleiro como um incauto sentimental. [...] Era fraco. [...] Itaro, se pudesse, gostaria de o ver morto. Depois, pensava, se pudesse, gostaria de o matar.Por seu lado, Saburo, sentimental, pensava que, se pudesse, gostaria de matar o artesão. Depois, ponderava e pensava que gostaria de o ver morto.² (MÃE, 2016, p. 60)

        Essa violenta tensão entre os vizinhos será o fio condutor principal do romance e chegará ao seu ápice num dos momentos mais lindos e reveladores do livro: o capítulo intitulado “A lenda do poço”.

        O PODER SILENCIOSO DO FEMININO
        O romance nos apresentará também três personagens femininas:
Matsu: irmã mais nova de Itaro que cumprindo a previsão do irmão nascera cega. Não obstante sua deficiência visual, a personagem tem talvez a melhor percepção do mundo que a cerca. Um grande infortúnio, no entanto, fará com que Matsu transforme-se numa imensa culpa que seu irmão carregará dolorosamente no coração;
Fuyu: esposa do oleiro Saburo, personagem que morre logo nas primeiras páginas, continuará fortemente presente através do comportamento e memória de seu marido. A sua ausência acarretará o surgimento de sentimentos como o luto, a ausência de amor, a solidão e a raiva;
Kame: antiga criada da família de Itaro, continuou na casa após a morte dos patrões para cuidar de Itaro e principalmente da menina Matsu. Apesar de subserviente, exercerá importante papel como “advogada do Diabo” entre Itaro e Saburo.

Fonte: http://www.hungry.com/~jamie/jimages/threemod.jpg


        É importante notarmos que todas as mulheres do romance, ainda que personagens secundárias, exercem papel fundamental no desenrolar do enredo e no amadurecimento dos personagens principais, visto que todas elas serão responsáveis pelo despertar e potencialização dos sentimentos positivos e negativos nas figuras masculinas. Ou seja, são elas representações da anima:

Anima é a personificação de todas as tendências psicológicas femininas na psique do homem – os humores e sentimentos instáveis, as intuições proféticas, a receptividade ao irracional, a capacidade de amar, a sensibilidade à natureza e, por fim, mas não menos importante, o relacionamento com o inconsciente.¹ (FRANZ, 2008, p. 234-35)

            O MONGE MISTERIOSO
        Contudo, a rotina calma e monótona do pobre vilarejo transforma-se por completo quando um personagem misterioso chega e se instala por lá. Ninguém nunca viu seu rosto, e os que afirmam terem visto não têm qualquer certeza do que viram.

Descreviam a figura do sábio pormenorizadamente, que era enorme ou minúsculo, largo ou sem ossos, sem cabeça e várias pernas, cinco pernas, falava por gestos, movia as mãos suavemente e o som nascia, usava a voz de um pássaro, falava em toda a volta, podia aparecer no topo das árvores, comovera-se diante do quimono da senhora Fuyu, tinha dito que era ubíquo, podia ficar ali e ir-se embora ao mesmo tempo. Toda a gente sentia que ele ficara em toda a parte.² (MÃE, 2016, p. 83)

        As raras aparições desse personagem, todo coberto por uma veste e véu negros, não o impossibilitarão de ser o responsável pela grande reviravolta do livro. Apesar de ser um homem de pouquíssimas palavras, seus aforismos acarretarão drásticas mudanças na rivalidade entre os vizinhos. E não será por acaso que o leitor ligará a imagem desse personagem à de Buda ou Jesus Cristo – ou até, quem sabe, com o Mestre dos Magos de Caverna do Dragão.

Se um indivíduo teve uma longa e séria luta contra a sua anima [...] de maneira a não se deixar identificar parcialmente [...], o inconsciente muda o seu caráter dominante e aparece sob nova forma simbólica, representada pelo self, o núcleo mais profundo da psique. [...] No caso dos homens, ele manifesta-se como um iniciador masculino ou um guardião (o guru dos hindus), um velho sábio, um espírito da natureza e assim por diante.¹ (FRANZ, 2008, p. 261)

        Deixo aqui uma dica preciosa aos leitores que irão aventurar-se na leitura do livro. Prestem atenção todas as vezes que esse misterioso personagem aparecer, pois ele vai se metamorfoseando a cada aparição e essas mudanças estão intrinsecamente ligadas ao processo de autoconhecimento de Itaro e Saburo.

           ENFIM, A EMPATIA...
        Homens imprudentemente poéticos é prova do poder que uma narrativa bem escrita ainda tem sobre quem a lê. O livro de Valter Hugo Mãe está longe de ser lido através de um único viés e acabará abrindo um infinito horizonte de interpretações em que o leitor encontrará o meio mais adequado de trilhá-lo.
        Mas uma mensagem comum brotará na mente e no coração de quem ler este incrível livro: são nos momentos de dúvidas e questionamentos se a vida realmente vale a pena ser vivida que todos nós precisamos encarar as sombras, os demônios e os medos para descobrirmos novos “eus” capazes de transformar o destino que já parecia traçado e imutável. Essa consciência será também responsável pelo surgimento da empatia e ao olharmos ao redor perceberemos que todo mundo tem sua batalha a ser vencida e a única coisa que podemos fazer é respeitá-la.

OBRAS CITADAS
¹ FRANZ, Marie-Louise von. O processo de individuação; trad. Maria Lúcia Pinho. In: O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.
² MÃE, Valter Hugo. Homens imprudentemente poéticos. São Paulo: Biblioteca Azul, 2016.

4 comentários:

  1. Resenha excepcional. Do Mãe li apenas o livro A desumanização que, embora triste, tem uma escrita lindamente poética.

    Com certeza lerei Homens imprudentemente poéticos.

    Um abraço.

    Wendel

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  2. Dizer que você escreve muito bem "é chover no molhado" hehehe. O livro parece ser superinteressante, mais um para a minha lista de leituras futuras. Parabéns pela resenha.

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  3. Realmente é uma resenha cativante, bem escrita... Vai levando seu leitor até o ápice e à certeza de que o livro deve entrar para a lista de leitura. Ainda não li esse livro do Valter Hugo Mãe, contudo parece-me que um pouco da essência tão encantadora da construção narrativa do autor, está descrita aqui.

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  4. Caro amigo, eu costumo dizer que "Mãe" é uma promessa de "autor clássico": daqui a alguns anos, escutaremos estudiosos atribuindo a ele um valor de grandiosidade, bem digno à escrita que apresenta. Eu somente li "Desumanização", mas não por falta de interesse! A obra mexeu muito comigo e arrebatou uma série de sentimentos, de forma que precisei de um tempo para encarar outro livro do autor. Após ler sua brilhante resenha a respeito do "Homens imprudentemente poéticos", senti-me aguçado a retomar o contato com o escritor lusitano. Irá certamente para minha lista de prioridades! Vc apresentou com tanto carinho e didatismo que eu queria estar com o livro agora, para falar a verdade! Atraiu-me principalmente essa questão dos opostos que se atraem (vivo uma relação de amor desse jeito há 12 anos e me identifiquei muito com a passagem que você ressaltou). Também fiquei pensando muito na personagem que aparece como o "desconhecido" e no quanto o "novo" tende a causar euforia, medo e frisson, não é?
    Parabéns pela resenha! Percebe-se o dom que você tem em traduzir com poucas (e muito bem escolhidas) palavras o que de mais relevante a obra tende a apresentar!
    Seguirei assiduamente seu blog :)

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