4.5.18

SADE: O ESPÍRITO DA REVOLUÇÃO

Afirmei em minha resenha sobre Caim e Abel que As flores do mal havia sido meu primeiro grande clássico da literatura. Naquela época, internet ainda era artigo de luxo e tínhamos que colocar a cara em livros empoeirados para realizar qualquer pesquisa. À procura de artigos sobre Charles Baudelaire, deparei-me com uma lista de livros proibidos: Os miseráveis, O crime do padre Amaro, O apanhador no campo de centeio, O amante de Lady Chatterley, 1984… Todos os títulos capazes de suscitar facilmente o pathos de qualquer alma juvenil, mas foi a sinopse do livro que encabeçava essa lista que encheu meus olhos de certo fulgor: Os 120 dias de Sodoma, de Marquês de Sade.



Por motivos – ainda – óbvios, não foram bem sucedidas as minhas procuras pelo maldito livro na biblioteca da escola e na pueril biblioteca municipal. Anos se passaram, o livro já havia caído no meu esquecimento, até que neste ano a Companhia das Letras decidiu relançar a famigerada obra-prima do Divino Marquês e finalmente pude cessar tal débito literário. Devorei suas páginas repletas de cenas chocantes de torturas e humilhações, mas durante a leitura, constatei que Os 120 dias de Sodoma é muito mais que um compêndio de perversões sexuais, é uma chave libertadora, revolucionária e de urgente necessidade.

UM CASTELO DE HORRORES
O enredo de Os 120 dias de Sodoma gira em torno da figura de quatro fidalgos franceses, Duque de Blangis (elite), Bispo de *** (religião), Presidente de Curval (política) e Durcet (economia) – os pilares de sustentação da sociedade – que decidem isolar-se em um castelo distante para poderem colocar em prática suas maiores perversões sexuais. Apesar da bestialidade que lhes serve de combustível, é um espírito consciente e meticuloso que os tomará durante a idealização minuciosa dessa longa temporada de férias. 

“Nunca a porra deve ditar ou comandar os princípios; cabe aos princípios regular a maneira de perdê-la.¹” (SADE, 2018, p. 350)

Um séquito formado pelas “filhas-esposas” dos fidalgos, velhas prostitutas, fodedores superdotados e um grupo de dezesseis jovens, entre 12 e 16 anos, sequestrados para serem deflorados das maneiras mais assustadoras, servirá como caça nesses jogos sexuais de extrema perversão. Tudo envolvido por muita saliva, sêmen, urina, fezes, vômito e sangue.


O livro obedece à seguinte estrutura: uma grande e detalhada introdução traçará para o leitor o perfil de seus personagens; os quatro capítulos seguintes, cada um contendo 150 “paixões”, serão narrados pelas velhas prostitutas que foram contratadas para relatar detalhadamente as experiências mais vis vividas e presenciadas por elas. Essas narrativas servirão de alimento para a libido dos fidalgos que reproduzirão essas aventuras sexuais com suas amantes e jovens pupilos.

FONTE PERENE PARA O PENSAMENTO
Engana-se por completo aquele que acredita que encontrará somente uma extensa lista de devassas imoralidades sexuais nas páginas de Os 120 dias de Sodoma. O livro é muito mais que uma bomba libidinosa, fruto originário de uma mente aprisionada e excluída por quase três décadas do convívio social; suas páginas carregam valores que serviram (e ainda servem) de corpus para um representativo grupo de intelectuais do século XX e que influenciaram de forma drástica a visão acerca do comportamento psicossexual humano. Simone de Beauvoir, George Bataille, Jacques Lacan foram apenas alguns dos nomes que se debruçaram sobre a obra sadiana, pois encontraram ali material suficiente para traçar as características de uma parafilia que recebeu o nome de sadismo.

Hoje, tal palavra está lamentavelmente atrelada a uma porção de romances em que homens galantes chicoteiam mulheres curiosas em locais luxuosos e asseados ao som de Beyoncé. No entanto, toda essa estética glamorosa diverge da essência de sadismo compreendido por Sade, que via na torpeza, na sordidez e na baixeza os fundamentos básicos para tal comportamento.

[...] a beleza é a coisa simples, a feiura é a coisa extraordinária, e todas as imaginações inflamadas sempre preferem na lubricidade, sem dúvida, a coisa extraordinária à coisa simples. A beleza, o frescor só impressionam, sempre, de maneira simples; a feiura, a degradação causam um impacto muito mais forte, a comoção é bem maior, portanto a excitação deve ser mais profunda.¹ (SADE, 2017, p. 60-61)

Especula-se muito o quê seria imaginação e o quê seriam relatos de experiências empíricas em torno das perversões listadas por Sade em sua obra. Apesar de não termos respostas extremamente confiáveis, a afirmativa de que o Divino Marquês tinha como princípio propulsor um senso de destruição do outro e de si mesmo não pode ser refutada.

É que a essência de seus livros é destruir: não apenas os objetos, as vítimas, postos em cena (que estão ali tão somente para responder à fúria de negar), mas o próprio autor e sua obra. É possível que, em definitivo, a fatalidade que quis que Sade escrevesse e perdesse sua obra tenha a mesma verdade que a obra: que traz a má nova de um acordo dos vivos com aquilo que os mata, do Bem com o Mal, e se poderia dizer: do grito mais forte com o silêncio.² (BATAILLE, 2017, p. 104)

Sade teve como ambição de vida ser o responsável pela derrocada de toda e qualquer convenção, crença e idealização humanas; é como se o escritor tivesse uma necessidade latente de dar à luz uma nova raça humana completamente liberta dos valores morais e religiosos vigentes daquela época (ou de hoje?). Isso talvez explique as inúmeras torturas envolvendo mulheres grávidas e bebês recém-nascidos.

O MESSIAS DO PECADO
Se considerarmos os artistas como previsores de zeitgeist de tempos futuros, para além da bestialidade e da imoralidade, Sade foi portador de um espírito revolucionário e transgressor que previu todas as revoluções políticas, sociais, econômicas e artísticas que surgiriam nos séculos seguintes na Europa.

O filósofo e escritor libertino, em uma trajetória completamente antagônica àquela do Cristianismo - um dos seus alvos de crítica favorito - concebeu com Os 120 dias de Sodoma um Novo Testamento, que viveu na clandestinidade por quase dois séculos. Em sua Escritura Sagrada, a humanidade é assombrada por quatro terríveis cavaleiros e presencia um apocalipse: uma revolução de valores e comportamentos, principalmente, sexuais.

Nossa revolução sexual tem múltiplas significações. Houve inicialmente o movimento de oposição às regras estreitas que paralisavam as relações dos sexos entre si. Ao mesmo tempo, a revisão de uma moral fundada sobre a noção de pecado sexual e de vergonha. O homem moderno teve que responder, por outro lado, à necessidade de esclarecer aquilo que permanecia nele de sombrio e fugidio. A humanidade devia enfim conhecer a si mesma inteiramente, devia dominar seus poderes e reencontrar sua unidade.³ (BATAILLE, 2017, p. 328)

A ironia deu ao Divino Marquês o poder de assumir o papel de Cristo Redentor. Eis o Cordeiro que trouxe o pecado ao mundo e não teve piedade de nós! Somente um pecado maior é capaz de redimir nossos medíocres pecadilhos. O porquê de a leitura de Os 120 dias de Sodoma ser chocantemente libertador é exatamente esse: Sade, com sua imaginação bestial, proporciona aos que o leem o senso de liberdade de viver seus desejos, fantasias e fetiches sexuais sem qualquer vestígio de culpa e/ou remorso, pois nada é comparado aos crimes sexuais narrados em seu livro.


A lamentação fica somente na questão de seu Evangelho ainda viver em certa clandestinidade, mas assim como os cristãos anseiam o retorno de Cristo para a salvação eterna, nós, animais sexuais, esperamos o retorno de Sade para uma nova e esperada revolução.

OBRAS CITADAS
¹ SADE, Marquês de. Os 120 dias de Sodoma; trad. Rosa Freire d’Aguiar. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2018;
² BATAILLE, Georges. A literatura e o mal; trad. Fernando Scheibe. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2017;
³ BATAILLE, Georges. O erotismo; trad. Fernando Scheibe. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2017.

23.4.18

A CONCRETUDE DO ABSTRATO

Aqueles que atravessam a grande Selva de Pedra chegam à Aldeia Pitoresca: cidade de ar monótono, casas pequenas e calçadas tão estreitas que a ida e vinda de transeuntes torna-se um grande desafio cotidiano. Os carros, células cancerígenas, entopem as vias que não foram criadas para o Progresso, palavra proibida na cidade que tem o Monopólio como prefeito. Nela, todos dormem, descansam e vivem em eterna letargia, mas algo não se pode negar, as montanhas que a cercam criam os mais belos horizontes, mas também aprisionam seus habitantes e fazem com que eles jamais consigam ultrapassar suas fronteiras.

Essa seria uma possível descrição da cidade onde vivo. Agora, convido todos vocês a refletir como é a cidade em que vivem. Como são suas ruas, casas, prédios, estradas e paisagens naturais? E como esses elementos somados podem, na realidade, ser a concretização do interior de todos os habitantes que nela residem? 


Esse também é o convite feito por Italo Calvino em As cidades invisíveis, romance lançado em 1972 e que se tornou a grande obra-prima do autor italiano.

PEQUENAS GRANDES CIDADES
Em As cidades invisíveis, o leitor irá deparar-se com os diálogos entre Kublai Khan, fundador da dinastia Yuan e quinto Grande Khan do Império Mongol, e Marco Polo, famoso mercador e explorador veneziano, que é designado, entre outros homens, a conhecer as cidades que formam o império e descrevê-las ao imperador.

Marco Polo, dotado da mais fértil imaginação e frutífera oratória, descreverá 55 cidades, que até mesmo o leitor menos atencioso perceberá que se trata de algo muito mais intricado do que meras descrições arquitetônicas e urbanísticas. Os relatos de Polo são, na verdade, retratos complexos e simbólicos de traços da experiência humana, como memória, tempo, linguagem e identidade.


Além disso, o romance de Calvino obedece a uma complexa estrutura narrativa. As descrições das fictícias cidades, intercaladas por curtos diálogos entre Khan e Polo, são agrupadas em 11 categorias distintas, cada uma representando relações e valores entre as construções artificiais no espaço e os intrínsecos aspectos da natureza humana.

OS ANDAIMES DAS CIDADES
“Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer.¹” (CALVINO, 2007, p. 11)

Utilizo-me de uma das definições de clássico proferidas pelo próprio Calvino – em seu Por que ler os clássicos? – para definir seu belíssimo romance. Independente da quantidade de vezes em que o leitor (re)ler as descrições dadas dessas cidades, a cada leitura ele tirará reflexões e conclusões diversas. Calvino nos faz perceber que toda a urbanidade tem como fascinante matéria-prima uma essência íntima, volúvel e voraz: os desejos e anseios humanos. 

- As cidades também acreditam ser obra da mente ou do acaso, mas nem um nem o outro bastam para sustentar suas muralhas. De uma cidade, não aproveitamos as suas sete ou setenta e sete maravilhas, mas a resposta que dá às nossas perguntas.² (CALVINO, 2017, p. 53)

Sendo os desejos e anseios humanos os andaimes das cidades, logo concluímos que as possibilidades urbanas são infinitas. A mesma cidade é construída, vista e percebida de maneira peculiar e única por cada um de seus habitantes. Dessa maneira, o homem mantém diariamente um relacionamento mutável com o espaço em que está inserido, pois tal relacionamento varia conforme seu estado de espírito e suas relações interpessoais.


Como consequência, essa variedade acarretará uma impossibilidade harmônica na convivência no espaço urbano haja vista que seus habitantes formam um coletivo absolutamente complexo, diversificado e multifacetado, ou seja, a vida na cidade é fruto de uma força caótica e infernal que rege tudo o que nos cerca.

- O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço.² (CALVINO, 2017, p. 200)

Cabe a nós decidirmos ser engolidos e asfixiados pelas muralhas que parecem cada dia mais altas, ou tentarmos abrir espaço onde o ar seja menos rarefeito e possamos, ainda que em instantes raros e breves, deixar de sermos apenas apêndices nesse organismo que nunca para de crescer: a cidade.

OBRAS CITADAS
¹ CALVINO, Italo. Por que ler os clássicos?; trad. Nilson Moulin. São Paulo: Companhia das Letras, 2007;
² CALVINO, Italo. As cidades invisíveis; trad. Diogo Mainardi. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

31.3.18

NASCIDOS EM CIMA DO MURO

No início, era apenas uma criança, e crianças não podem intrometer-se na conversa de adultos. Estudar, no entanto, era obrigação; afinal de contas, um futuro brilhante o aguardava. Os anos escolares finalmente findaram... Agora já era um homem, e como tal, deveria escolher com precisão o que faria da vida. Vestibular, faculdade, mais anos de estudos e o desafio de vencer o monstro chamado Mercado de Trabalho. Calma! Espere! A Terra Prometida já está logo ali, após a curva.

O emprego não era bem aquele dos sonhos, mas o aumento salarial viria, disseram-lhe isso. A vida longe dos pais, a busca pela pessoa perfeita, o casamento, os filhos, a necessidade de outro emprego, de mais dinheiro, de um apartamento maior, a viagem dos sonhos, a escola das crianças, o plano de saúde, o cansaço, o estresse, as úlceras, as dores de cabeça... Calma! Espere! A Terra Prometida já está logo ali, após a curva.



É um olhar tenebroso, irônico e desolador que Esperando Godot, do irlandês Samuel Beckett, lança sobre a ideia da eterna espera da chegada à Terra Prometida que aguardamos desde o momento em que nascemos.

NADA, NADA, NADA E MAIS NADA!
Difícil será tentar explicar o enredo dessa peça, dividida em dois atos, onde “nada” acontece. No primeiro ato, estamos em um lugar inóspito, exceto por uma única árvore – a mesma do Éden que guardava todo o conhecimento – onde Estragon e Vladimir esperam Godot, que havia prometido aparecer. Ambos, no entanto, não sabem se o lugar, o dia e o horário do encontro estão corretos. Na verdade, não sabem nem quem é o tal Godot, mas sem nada mais interessante para fazer, eles esperam, e esperam, e esperam, e esperam...


A conversa entre a dupla de clowns só é interrompida quando outros dois personagens bem curiosos entram em cena: Pozzo e Lucky. Os dois personificam uma relação estranhamente “harmônica” de mestre e escravo e encenam uma miríade de bizarrices que nos será, no mínimo, incômoda. O dia chega ao fim, junto com o final do primeiro ato, e Godot não deu sinal de vida. O segundo ato... Bem, é quase idêntico ao primeiro – Beckett e seu genial senso de humor – o que nos faz questionar a temporalidade da peça e se podemos, de fato, dizer que ela tem um começo, um meio e, principalmente, um fim.

As mais surpreendentes e extravagantes hipóteses acerca de Esperando Godot já foram levantadas pela crítica literária. 

Até hoje continua a discussão sobre essa obra dramática, mas misteriosamente estática, para cuja compreensão o próprio Beckett não quis contribuir. É um texto altamente paradoxal, de gravidade assustadora, não realista ou até antirrealista, sem começo nem fim, obra trágica e no entanto iluminada por um atroz humor negro. Parece vazia e acaba em silêncio.¹ (CARPEAUX, 2012, p.217)

O texto de aparência despropositada, inócua e sem sentido nos permite escavar de suas entrelinhas uma infinitude de leituras sociais, religiosas, econômicas, históricas, políticas, filosóficas, etc. Beckett, no entanto, afirmava que a única certeza que tinha era a de que os personagens usariam chapéus-cocos, o restante... Nada, nada, nada e mais nada.

ESTRAGON E VLADIMIR: OS PALHAÇOS QUE SOMOS NÓS.
O lançamento de Esperando Godot deu-se em 1952. As duas Grandes Guerras haviam assolado a humanidade e os homens, mais que nunca, passaram a se preocupar principalmente com o futuro. O presente tornara-se, de forma simplória, um conceito abstrato, haja vista que sua existência servia apenas para nos lembrarmos saudosamente de um passado mais seguro e para idealizarmos um futuro menos aterrorizante.

Estragon e Vladimir, representantes do maior estrato social – a classe-média, são vítimas desse sentimento de falta de controle e autonomia sobre o tempo-presente causado pelos traumas do pós-guerra. Beckett, através da dupla de clowns, comprova que nossa preocupação exagerada com o futuro acarreta a impossibilidade da distinção e do reconhecimento de si. Esse não-reconhecimento, por conseguinte, acaba nos colocando numa espiral infinita de objetivos inalcançáveis, de planos intermináveis e de crises existenciais sem fim. Godot, portanto, é a representação desse futuro que nos promete a realização dos sonhos, desejos e da libertação de si.

POZZO E LUCKY: JOGO DE PODER.
A situação é completamente diferente para Pozzo e Lucky que representam os dois extremos da sociedade: os poderosos e os miseráveis, respectivamente. É claro que não lhes negamos o direito à crise existencial, mas a esses dois grupos, o destino lhes parece mais claro. Um sabe que o poder pode-lhe “comprar” tudo; o outro, que o destino pouco ou nada lhe reserva.  A relação dos dois é uma clara referência à hermética ideia hegeliana da fenomenologia do espírito:

A consciência-de-si é em si e para si quando e porque é em si e para si para uma Outra. [...] Para a consciência-de-si há uma outra consciência-de-si [ou seja]: ela veio para fora de si. Isso tem dupla significação: primeiro, ela se perdeu a si mesma, pois se acha numa outra essência. Segundo, com isso ela suprassumiu o Outro, pois não vê o Outro como essência, mas é a si mesma que vê no Outro. (HEGEL, 1996, p.126)


Essa consciência-de-si não é possível a Estragon e Vladimir, pois eles estão estratificados num grupo de tamanho imensurável que não sabe quem é, em quem manda ou a quem obedece. Apesar de muitas vezes negarmos, o poder é fator essencial para a ordem e equilíbrio da sociedade. A classe-média, portanto, não passaria de um limbo social, onde vozes diferentes jamais conseguiriam falar em uníssono. A consequência: um grupo incapaz de fugir do ciclo interminável de descontentamento, frustração, sentimento de fracasso e desejos impossíveis de serem realizados. Ouçam e me digam, a voz de Vladimir não seria também igual a nossa? 

“Não percamos tempo com palavras vazias. (Pausa. Com veemência) Façamos alguma coisa, enquanto há chance! Não é todo dia que precisam de nós. Ainda que, a bem da verdade, não seja exatamente de nós. Outros dariam conta do recado, tão bem quanto, senão melhor. O apelo que ouvimos se dirige antes a toda humanidade. Mas neste lugar, neste momento, a humanidade somos nós, queiramos ou não. Aproveitemos enquanto é tempo. Representar dignamente, uma única vez que seja, a espécie a que estamos desgraçadamente atados pelo destino cruel. O que me diz? (Estragon não fala nada) Claro que, avaliando os prós e os contras, de cabeça fria, não chegamos a desmerecer a espécie. Veja o tigre, que se precipita em socorro de seus congêneres, sem a menor hesitação. Ou foge, salva sua pele, embrenhando-se no meio da mata. Mas não é esse o xis da questão. Foi-nos dada uma oportunidade de descobrir. Sim, dentro dessa imensa confusão, apenas uma coisa está clara: estamos esperando que Godot venha.³ (BECKETT, p. 160, 2005)

Até a próxima resenha! Enquanto isso... esperemos Godot!

OBRAS CITADAS
¹ CARPEAUX, Otto Maria. História da literatura ocidental: as tendências contemporâneas por Carpeaux, v. 10. Rio de Janeiro: LeYa, 2012. 
² HEGEL. A fenomenologia do espírito; trad. Paulo Meneses. Petrópolis: Editora Vozes, 1996.
³ BECKETT, Samuel. Esperando Godot; trad. Fábio de Souza Andrade. São Paulo: Cosac Naify, 2005.