30.10.17

A FORÇA DO AMOR

        As aparições de Cupido e Afrodite nas histórias mitológicas nos trazem uma única certeza: confusão. Puck, versão shakespeariana do travesso arqueiro grego, também conseguiu transformar os sonhos amorosos de uma noite de verão em uma quase tragédia. Resumindo, já é sabido por todos que o amor, sentimento cantado pelos poetas e tão cobiçado pela humanidade, ainda que o catastrófico cenário atual do mundo pareça destoar dessa ideia, é estopim de muita confusão, drama, tragédia e reviravolta. Mas o que seria de todos nós – Lord, what fools these mortals be! – sem o bendito do amor, não é mesmo?
       Segundo Jung, o oposto do amor seria o poder, pois em sua jurisdição a existência de qualquer sentimento fica impossibilitada. Afirmo: o oposto de amar é ter medo. Alguns buscam o amor por simplesmente temer que a solidão lhe seja a única companheira; outros o buscam por medo de desonrar a família; os que já amam e são amados temem pela perda da pessoa que se ama... Sim, é para aplacar os infortúnios do medo que buscamos esse laborioso e imprevisível sentimento.



         É sobre a conflitante dicotomia amor versus medo que o enredo de O filho de mil homens, romance do já consagrado autor português Valter Hugo Mãe, é construído.

          UMA DISCREPANTE COLEÇÃO DE HUMANOS
        Crisóstomo acabou de completar quarenta anos e se sente um “meio-homem” por não ter tido filhos. Camilo não sabe quem é seu pai, sua mãe morreu durante o parto e ele perdeu seus avós adotivos. Isaura é usada e enganada pelo pretendente a marido, o pai morre de desgosto e a mãe sofre de uma doença misteriosa. Antonino, filho de Matilde, sofre todo tipo de violência por ser o “maricas” do vilarejo. Matilde culpa-se pelo filho homossexual e acha que falhou como mãe. Mininha é filha da caseira de Matilde e acaba se vendo órfã após a estranha e repentina morte da mãe... É sobre essa intrincada miríade de personagens que o Amor decide colocar à prova o seu poder de transformação.
         Com histórias distintas e desconexas, à primeira leitura, o narrador de O filho de mil homens tece de forma precisa – com a linha de coser do acaso – um cenário onde essas células diversas passam a se comunicar e a identificar o conteúdo análogo que preenche seus núcleos: o medo de não amar nem ser amado. Aos poucos todos os personagens acabam se transformando em um organismo cônscio e harmônico, confirmando a máxima que de alguma forma, ainda que racionalmente inexplicável, todos os organismos estão conectados.

[...] todos nascemos filhos de mil pais e de mais mil mães, e a solidão é sobretudo a incapacidade de ver qualquer pessoa como nos pertencendo, para que nos pertença de verdade e se gere um cuidado mútuo. Como se os nossos mil pais e mais as nossas mil mães coincidissem em parte, como se fôssemos por aí irmãos, irmãos uns dos outros. (MÃE, 2011, p.188)

         O TEMPO DOS SENTIMENTOS
       Com esse romance Valter Hugo Mãe prova não somente sua maestria com o lirismo das palavras – desafio o leitor a encontrar alguma página sem uma frase poeticamente impactante – mas também seu domínio sobre a forma como o elemento temporal interfere na construção de seu enredo.
        Ao contrário de seus outros romances, onde os personagens, à primeira vista, parecem amorfos e ganham forma completa somente com seus desfechos, em O filho de mil homens, o leitor tem uma ideia bem definida de quem os são – apesar das surpresas guardadas em suas páginas. O único elemento sem forma, volátil e inconstante é o tempo.
        A linearidade do tempo aqui é inexistente; o passado e o presente se revezam na construção de uma memória. O mais interessante, no entanto, é notarmos que esse quebra-cabeça cronológico não trata do resgate da memória de qualquer um dos personagens. Validando a ideia da relatividade do tempo em relação aos sentimentos, podemos facilmente vislumbrar o Amor como a voz narrativa desse romance. É a memória deste nobre sentimento que é recuperada e inunda as páginas desse belíssimo livro.
Auguste Rodin, O Beijo, 1889.
Fonte: https://fernandoeichenberg.wordpress.com/2017/03/29/a-onda-de-choque-de-rodin-no-grand-palais/

    Valter Hugo Mãe presenteia seus leitores com um livro de imprescindível importância para desestruturar as tradicionais convenções sociais de família. Ainda que soe piegas – certas coisas não podem ser ditas de outra forma – O filho de mil homens quer (re)confirmar que a constituição de uma família não depende de questões genéticas, influências consanguíneas ou procedimentos legais, mas apenas da vontade de amar. 
      Seu livro aborda também outras sérias questões, como a misoginia, o preconceito e a violência, e prova que todos os grandes problemas sociais que nos assomam estão relacionados com o sentimento de medo, pois é ele que nos faz afastar daqueles que não nos parecem semelhantes. É o medo, com suas barreiras geladas, que nos isola do desconhecido. É o medo, com sua visão limitada, que nos condiciona ao status quo. Sim, o medo é apenas uma extensão covarde da ignorância.

OBRA CITADA
MÃE, Valter Hugo. O filho de mil homens. São Paulo: Cosac Naify, 2012.

1.10.17

TODAS AS CORES DO MUNDO

        Começo a escrever esse texto e sinto que não me será possível escrevê-lo de forma tão analítica. Primeiro, não quero entregar muitos detalhes do surpreendente enredo do livro. Segundo, não consigo desligar-me de forma emocional dos temas abordados nele. Isso, no entanto, parece-me um bom sinal, pois nada mais gratificante que a sensação de transformação que um bom fruto da arte pode nos proporcionar, não é verdade?
        Tenho plena certeza de que todos que me leem agora já tiveram a sensação de “por que não fui eu que escrevi isso?”. Ou sentiram-se tocados ao ouvir uma canção, ou ao ler os versos de um poema, ou ao admirar um quadro numa galeria. Sim, todas as obras criadas sob a benção das filhas de Mnemósine são capazes de transformar o mundo. Corrigindo… São capazes de transformar os olhos com os quais vemos o mundo.



        É um olhar singelo, porém, intensamente poético que o livro Todas as cores do mundo, do jovem escritor italiano Giovanni Montanaro, lançará sobre esse poder de transformação que a arte tem em nossas vidas.

        EM TERRA DE LOUCO QUEM TEM UM PINGO DE CONSCIÊNCIA É LOUCO TAMBÉM.
        A estrutura narrativa de Todas as cores do mundo consiste em uma grande missiva escrita por Teresa Sem Sonhos, moradora de uma cidadezinha belga chamada Gheel (amarelo, em holandês), mais conhecida pelo epíteto “terra dos loucos”. A narradora é parida no meio da rua por uma moradora maluca que acaba falecendo no trabalho de parto. Para não ser abandonada, Teresa é adotada pela família Vanheim que decide registrá-la como louca para receber um benefício financeiro que garantirá à menina pelo menos o dote para se casar quando adulta.
        É através do olhar de Teresa Sem Sonhos que os leitores descobrirão como foi sua vida nessa pequena cidade em que a loucura parecia estar embrenhada no solo, no ar e na água e que silenciosa e sorrateiramente acabava penetrando na alma de seus moradores. Ser louco ali não era incomum, tanto que em vários momentos vemos seus tresloucados habitantes em situações corriqueiras e banais convivendo harmoniosamente em sociedade. O que Teresa Sem Sonhos jamais poderia esperar era que sua vida mudaria drasticamente com a chegada de um peregrino à cidade de Gheel: Vincent van Gogh.

Fonte: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/b/b2/Vincent_van_Gogh_-_Self-Portrait_-_Google_Art_Project.jpg

       O grande trunfo do romance de Giovanni Montanaro reside no casamento perfeito entre realidade e ficção em torno do passado do Sr. van Gogh. Um hiato entre agosto de 1879 a junho de 1880, em que o futuro pintor não escrevera ao seu irmão Theo, e cartas de 1881 a 1882, em que o pintor cita Gheel e a intenção do pai de mandá-lo para lá, farão com que o aparecimento de van Gogh na vida da personagem Teresa Sem Sonhos ganhe dimensões ainda mais legítimas e poderosas.

            O TOQUE DAS MUSAS
     Quando entramos em contato com alguma obra de arte estabelecemos automaticamente diversas relações com o objeto físico: o relacionamento (nem sempre empático) entre apreciador e criador e as relações sensoriais (tática, visual, auditiva e olfativa) são exemplos disso. Há, no entanto, uma relação que ansiamos ainda mais – que vai muito além do caráter prático e objetivo entre homem e objeto – que é a sensação de sermos transportados a um universo paralelo onde encontraremos finalmente uma maneira de nos tornarmos cônscios de nossos sonhos, anseios e medos. Saindo muitas vezes dessa interação transformados e vendo o mundo ao redor com outras cores.
        Relação semelhante acontecerá quando o andarilho ruivo chegar a Gheel. Teresa se apaixonará perdidamente por ele, pois seus instintos já percebem que aquele homem estranho, de cabelos de fogo e olhar vívido, nascera com o destino de ser um grande pintor. Os dois começam, então, uma bela jornada em busca do autoconhecimento. Van Gogh, incentivado por Teresa, começa a descobrir seus dons artísticos e Teresa, atingida em cheio pelos sentimentos, descobre-se como um ser capaz de amar.
Somos dois girassóis pintados sobre um fundo azul. Duas flores infladas, maduras, frente a frente, como se se fitassem, como se se falassem ao ouvido. Uma parece proteger a outra. Não se percebe bem onde estão apoiadas; talvez sobre uma mesa coberta por um pano, talvez sobre um céu azul. Uma das duas tem dentro como que uma pupila, um olho inquieto, e as corolas parecem chamas. É um olhar que queima, que arde. Como o seu. Os talos dos girassóis não se sabe bem onde começam, talvez ainda estejam presos à planta. Mas, a mim, parece que as duas flores foram cortadas; percebe-se isso por uma sombra que têm, como se já estivessem começando a murchar.São duas.Parecem estreitar-se, abraçar-se, procurar calor.Somos nós dois?Somos nós dois, aqui?” (MONTANARO, 2014, p. 110)

        O que Teresa, entretanto, não poderia vislumbrar era que ao incentivar van Gogh a pintar, criava concomitantemente o antídoto perfeito para os demônios que assombrariam sua alma no futuro. É nesse momento que o leitor ficará boquiaberto com o surpreendente desfecho desse romance.

Fonte: https://www.vangogh.net/images/paintings/two-cut-sunflowers.jpg

        Com um enredo que poderia ser apenas mais uma simples história de amor, como muitas outras que já lemos, Montanaro consegue surpreender ao nos presentear com um turning point deveras inesperado, espantoso e incrível – a ponto de me fazer conferir a numeração das páginas para ver se não faltavam folhas no meu livro. E ao final da leitura, o leitor perceberá que Todas as cores do mundo é um grande alerta para que possamos perceber como todos nós somos influenciados pela indiferença da razão, pelo daltonismo da ciência e pelas infelizes e cruéis convenções sociais.

É pela cor que se compreende se os frutos estão maduros, se uma boca é saudável, se um melro é fêmea ou macho, se um inseto é perigoso, se um cogumelo é comestível, se o dia acabou e se a água pode ser bebida. Se a pessoa está feliz ou triste. (MONTANARO, 2014, p. 86)

Fonte: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/e/ea/Van_Gogh_-_Starry_Night_-_Google_Art_Project.jpg/1280px-Van_Gogh_-_Starry_Night_-_Google_Art_Project.jpg

OBRA CITADA
MONTANARO, Giovanni. Todas as cores do mundo; trad. Joana Angélica d’Avila Melo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014.

31.8.17

UM JAPÃO UNIVERSAL

        Repentinamente você abre os olhos e se encontra na penumbra. Um palmo a frente do nariz: escuridão. A luz fria e pálida da lua, no entanto, trespassa de forma tímida as frestas da janela. Os olhos adaptam-se à ausência de luz e você percebe vultos fantasmagóricos. O coração acelera, o medo assoma, mas gradativamente os vultos delineiam-se, ganham forma e você se dá conta de que são apenas os móveis do seu quarto.
        Sensação semelhante sentirá o leitor ao entrar em contato com a escrita de Valter Hugo Mãe, escritor português que tem ganhado grande destaque no cenário literário mundial – mais que merecido, diga-se de passagem. Aparentemente seus enredos carecem de coesão; seus personagens são figuras translúcidas; sua prosa, pequenos versos num confuso emaranhado lírico... Todavia, a Beleza não é fácil. Ela demanda labuta, suor, tempo e assimilação. A cada página virada, o leitor perceber-se-á maravilhado diante de um texto lapidado com precisão por esse escritor que fez as antologias literárias tornarem-se obsoletas por não terem o seu nome nelas.




        Seu mais recente lançamento, Homens imprudentemente poéticos (2016), publicado no Brasil pelo selo Biblioteca Azul, levará o leitor numa viagem a um Japão antigo, mítico e fabuloso, onde a vida ainda era regida principalmente pelos instintos e pelos espíritos da natureza.

          LENDAS, FÁBULAS E HISTÓRIAS
        Antes de falar sobre o enredo, é importante dar destaque à estrutura narrativa que ordena Homens imprudentemente poéticos. Os vários capítulos do livro carregam características típicas às lendas, fábulas e histórias populares, pois trazem consigo preceitos morais e fortes traços míticos. Fator fundamental para que o leitor seja transportado, sem qualquer estranhamento racional, a um tempo longínquo e a um espaço idílico, onde a racionalidade ainda não havia ditado suas regras à verossimilhança.
        Bem, dito isso, vamos ao enredo... Dois são os personagens principais: Itaro – homem austero devido a certas circunstâncias da vida – é artesão e nasceu com um dom (e também maldição) de prever o futuro ao presenciar a morte de algum animal; e Saburo, seu doce e sensível vizinho oleiro, que leva uma vida tranquila e apaixonada ao lado da esposa Fuyu. Ambos moram em um pequeno e pobre vilarejo ao pé do monte Fuji, à entrada da floresta dos suicidas, local em que muitos homens vão meditar sobre suas vidas e acabam decidindo por não voltar nunca mais.

Fonte: http://www.pipolltravel.com.br/sites/default/files/empregos_no_japao_fuji3_0.jpg


        Certo dia, Itaro prevê que Fuyu será morta por um animal misterioso da floresta e avisa seu vizinho que é preciso “mudar a natureza” para que isso não aconteça. Desesperado, Saburo decide construir um imenso jardim de flores para tentar acalmar os espíritos da floresta, mas a previsão de Itaro acaba provando-se inevitável – calma, isso não é spoiler, pois ocorre nas primeiras páginas do livro – o que acaba fazendo com que os vizinhos criem mútua antipatia e se tornem grandes inimigos. É a partir desse fato que a história vai ganhando contornos mais densos e percebemos, na verdade, que Mãe não conta a história de dois personagens ficcionais, mas sim a história de todos nós; a história de quem somos e de quem nos tornamos.

          OS OPOSTOS SEMPRE SE ATRAEM
        Quem nunca se sentiu fascinado ou provocado ao entrar em contato com uma pessoa oposta a você? O tímido que se apaixona pela pessoa extrovertida e eloquente; o nerd que almeja a aceitação entre os populares; a menina pudica que condena a colega de roupas curtas e decotadas... O ditado popular não erra ao dizer que os opostos sempre se atraem. Mas por quê?
        Ao nascermos somos uma massa amorfa capaz de ser modelada de infinitas maneiras. Fatores como o ambiente, a educação e as convenções sociais, por exemplo, dão-nos forma e aos poucos nossas potencialidades são construídas. Muitas potencialidades, entretanto, acabam “adormecidas” e vão parar em um limbo mental que na psicologia analítica é chamada de “sombra”.

A sombra não é o todo da personalidade inconsciente: representa qualidades e atributos desconhecidos ou pouco conhecidos do ego – aspectos que pertencem sobretudo à esfera pessoal e que poderiam também ser conscientes. [...] Quando uma pessoa tenta ver a sua sombra, ela fica consciente (e muitas vezes envergonhada) das tendências e impulsos que nega existirem em si mesma, mas que consegue perfeitamente ver nos outros.¹ (FRANZ, 2008, p. 222)

        Itaro e Saburo representam respectivamente a sombra um do outro. Itaro é a alegoria perfeita do comportamento lógico e objetivo, falta-lhe traquejo social e aptidão para expressar sentimentos, apesar de ser um artista capaz de produzir os mais belos leques do Japão; Saburo é o oposto: homem apaixonado e sentimental, artista sensível, rodeado de amigos e admirado pela vizinhança. É capaz, no entanto, de demonstrar bravura e petulância para proteger aquilo que lhe importa. É portanto a consciência que eles tomam um do outro que provocará o asco, a repulsa, a vergonha, o desejo de aniquilação, mas também uma atração incontrolável entre eles.

Fonte: https://mega.ibxk.com.br/2014/06/27/27190924117004.jpg?w=600

O artesão pensava no vizinho oleiro como um incauto sentimental. [...] Era fraco. [...] Itaro, se pudesse, gostaria de o ver morto. Depois, pensava, se pudesse, gostaria de o matar.Por seu lado, Saburo, sentimental, pensava que, se pudesse, gostaria de matar o artesão. Depois, ponderava e pensava que gostaria de o ver morto.² (MÃE, 2016, p. 60)

        Essa violenta tensão entre os vizinhos será o fio condutor principal do romance e chegará ao seu ápice num dos momentos mais lindos e reveladores do livro: o capítulo intitulado “A lenda do poço”.

        O PODER SILENCIOSO DO FEMININO
        O romance nos apresentará também três personagens femininas:
Matsu: irmã mais nova de Itaro que cumprindo a previsão do irmão nascera cega. Não obstante sua deficiência visual, a personagem tem talvez a melhor percepção do mundo que a cerca. Um grande infortúnio, no entanto, fará com que Matsu transforme-se numa imensa culpa que seu irmão carregará dolorosamente no coração;
Fuyu: esposa do oleiro Saburo, personagem que morre logo nas primeiras páginas, continuará fortemente presente através do comportamento e memória de seu marido. A sua ausência acarretará o surgimento de sentimentos como o luto, a ausência de amor, a solidão e a raiva;
Kame: antiga criada da família de Itaro, continuou na casa após a morte dos patrões para cuidar de Itaro e principalmente da menina Matsu. Apesar de subserviente, exercerá importante papel como “advogada do Diabo” entre Itaro e Saburo.

Fonte: http://www.hungry.com/~jamie/jimages/threemod.jpg


        É importante notarmos que todas as mulheres do romance, ainda que personagens secundárias, exercem papel fundamental no desenrolar do enredo e no amadurecimento dos personagens principais, visto que todas elas serão responsáveis pelo despertar e potencialização dos sentimentos positivos e negativos nas figuras masculinas. Ou seja, são elas representações da anima:

Anima é a personificação de todas as tendências psicológicas femininas na psique do homem – os humores e sentimentos instáveis, as intuições proféticas, a receptividade ao irracional, a capacidade de amar, a sensibilidade à natureza e, por fim, mas não menos importante, o relacionamento com o inconsciente.¹ (FRANZ, 2008, p. 234-35)

            O MONGE MISTERIOSO
        Contudo, a rotina calma e monótona do pobre vilarejo transforma-se por completo quando um personagem misterioso chega e se instala por lá. Ninguém nunca viu seu rosto, e os que afirmam terem visto não têm qualquer certeza do que viram.

Descreviam a figura do sábio pormenorizadamente, que era enorme ou minúsculo, largo ou sem ossos, sem cabeça e várias pernas, cinco pernas, falava por gestos, movia as mãos suavemente e o som nascia, usava a voz de um pássaro, falava em toda a volta, podia aparecer no topo das árvores, comovera-se diante do quimono da senhora Fuyu, tinha dito que era ubíquo, podia ficar ali e ir-se embora ao mesmo tempo. Toda a gente sentia que ele ficara em toda a parte.² (MÃE, 2016, p. 83)

        As raras aparições desse personagem, todo coberto por uma veste e véu negros, não o impossibilitarão de ser o responsável pela grande reviravolta do livro. Apesar de ser um homem de pouquíssimas palavras, seus aforismos acarretarão drásticas mudanças na rivalidade entre os vizinhos. E não será por acaso que o leitor ligará a imagem desse personagem à de Buda ou Jesus Cristo – ou até, quem sabe, com o Mestre dos Magos de Caverna do Dragão.

Se um indivíduo teve uma longa e séria luta contra a sua anima [...] de maneira a não se deixar identificar parcialmente [...], o inconsciente muda o seu caráter dominante e aparece sob nova forma simbólica, representada pelo self, o núcleo mais profundo da psique. [...] No caso dos homens, ele manifesta-se como um iniciador masculino ou um guardião (o guru dos hindus), um velho sábio, um espírito da natureza e assim por diante.¹ (FRANZ, 2008, p. 261)

        Deixo aqui uma dica preciosa aos leitores que irão aventurar-se na leitura do livro. Prestem atenção todas as vezes que esse misterioso personagem aparecer, pois ele vai se metamorfoseando a cada aparição e essas mudanças estão intrinsecamente ligadas ao processo de autoconhecimento de Itaro e Saburo.

           ENFIM, A EMPATIA...
        Homens imprudentemente poéticos é prova do poder que uma narrativa bem escrita ainda tem sobre quem a lê. O livro de Valter Hugo Mãe está longe de ser lido através de um único viés e acabará abrindo um infinito horizonte de interpretações em que o leitor encontrará o meio mais adequado de trilhá-lo.
        Mas uma mensagem comum brotará na mente e no coração de quem ler este incrível livro: são nos momentos de dúvidas e questionamentos se a vida realmente vale a pena ser vivida que todos nós precisamos encarar as sombras, os demônios e os medos para descobrirmos novos “eus” capazes de transformar o destino que já parecia traçado e imutável. Essa consciência será também responsável pelo surgimento da empatia e ao olharmos ao redor perceberemos que todo mundo tem sua batalha a ser vencida e a única coisa que podemos fazer é respeitá-la.

OBRAS CITADAS
¹ FRANZ, Marie-Louise von. O processo de individuação; trad. Maria Lúcia Pinho. In: O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.
² MÃE, Valter Hugo. Homens imprudentemente poéticos. São Paulo: Biblioteca Azul, 2016.